domingo, 16 de junho de 2019

[ Review / Resenha ] DARKTHRONE - OLD STAR

Capa do "Old Star", 18º álbum da banda norueguesa Darkthrone. 

O Darkthrone é uma banda extraordinariamente intrigante, mas ao mesmo tempo interessante e admirável. Por mais de 30 anos as lendas norueguesas estão abrindo caminho não apenas no “céu do norte”, mas em todo o metal extremo.  Formado pela dupla Gylve 'Fenriz' Nagell (vocalista/guitarrista/baixista) e Ted 'Nocturno Culto' Skjellum (baterista) eles começaram o Darkthrone como uma banda de death metal, mas rapidamente o Darkthrone se transformou em uma das bandas de black metal mais influentes e respeitadas de todos os tempos. Nessa época a banda se inspirou em grupos da primeira onda do black metal, como Venom e Bathory, mas sempre procurando a própria identidade e desenvolvendo o próprio som (no modelo do black metal norueguês, a segunda onda do black metal que se tornou o pilar sobre o qual todos os desenvolvimentos futuros do black metal foram construídos).


Embora o DARKTHRONE seja sempre considerado uma banda pioneira de black metal (A Blaze In A Northern Sky, Under a Funeral Moon e Transylvanian Hunger estão entre as obras mais importantes no gênero) sua produção musical hoje vai muito além das restrições do gênero. Desde 2006, Fenriz e Ted incorporaram elementos de thrash, punk, speed metal, punk, hardcore e heavy metal tradicional em suas composições.  A dupla continuou a expandir incansavelmente seu som e até se afastaram do tradicional estilo black metal, mas sempre sem perder sua essência, já que existe uma escuridão intrínseca que é evidente em seus registros, independentemente de estarmos diante de um “trve norwegian black metal” ou de um “metalpunk” , e é essa escuridão interior que faz com que músicas tão distintas sempre soem como Darkthrone e que despertem o interesse das  pessoas nos álbuns da banda. Encontramos álbuns do Darkthrone para todas as ocasiões, mas todos eles parecem pertencer à mesma árvore genealógica, todos elaborados sobre os mesmos ideais centrais, que é um amor sincero e insatisfeito e não pretensioso pela música heavy metal.
Ted 'Nocturno Culto' Skjellum e Gylve 'Fenriz' Nagell 
Ao longo de três décadas a banda forjou um legado intransponível e incrivelmente influente, e um dos motivos do Darkthrone ser uma referência no metal e de ter uma discografia tão vasta, criativa e interessante é que eles realmente não se preocupam em agradar. Eles se recusam a obedecer a regras específicas ou a ceder ao que se espera deles. Eles sempre fazem suas próprias coisas, sem nenhuma preocupação de saber se a mudança do som do último disco irá inspirar uma reação positiva ou negativa dos fãs e críticos. A banda realmente não dá tanta importância para a expectativa do público, talvez porque, como não fazem turnê, nunca precisem interagir com o público, já que a dupla não tem feito um show ao vivo há mais de duas décadas. Seria isso um problema para o crescimento da banda? Para os fãs da banda isso pode ser um problema já que adoraríamos ter o privilégio de acompanhar a banda atuando ao vivo, mas analisando de maneira prática e pragmática, a ausência de shows não se caracteriza como um empecilho para o crescimento da banda, já que mesmo sem apresentações ao vivo a banda continua a atrair novos admiradores, além de manter o apoio leal de seus fãs mais antigos.  Resumindo: lançar uma discografia sem realizar shows tem funcionado para eles.

A mente criativa por trás da banda é o baterista Fenriz. Ele é bem conhecido por seu amplo conhecimento musical e gostos ecléticos. Apresentando programas de rádio, compilando playlists e entusiasmando-se com todos os aspectos do heavy metal em inúmeros documentários e entrevistas, ele se tornou talvez uma das figuras mais respeitadas e amadas do black metal. Toda essa experiência teve alcance em seu processo criativo. A mente de Fenriz (um exímio conhecedor musical e verdadeiramente apaixonado pela música) é um terreno fértil, e todas essas inspirações são canalizadas para as suas composições, fazendo com que a música do Darkthrone nunca fique em uma zona de conforto ou soando 'parecida'. Obvio que não podemos negar a importância do Ted para a banda e de sua contribuição significativa, mas sem dúvidas Fenriz é o maior responsável pelo Darkthrone ser uma das bandas emblemáticas do metal.

Quanto ao novo álbum,  ‘Old Star’ é mais eclético do que o lançamento anterior, o ‘Arctic Thunder’ de 2016. Podemos afirmas que o álbum Old Star é um movimento direto para o mundo do doom metal, feito com todo o tradicionalismo que apenas uma banda como Darkthrone poderia reunir. Mas, embora a banda tenha se distanciado do som apresentado em seus primeiros álbuns, a essência do black metal se faz presente na “alma” do Old Star. Fenriz afirmou que a banda não tem sido “true black metal” há um bom tempo, mas que este álbum certamente remonta a seus primeiros anos, embora com virtuosismo e maturidade que só vem com idade e experiência.

O Old Star é um álbum que funciona por vários motivos (por exemplo, eles fazem um bom trabalho de sequenciamento das faixas, dando um bom fluxo para as músicas), mas há um principal motivo para esse álbum ser tão bom: os riffs. Afastando-se do punk cru e do som metálico difuso, o Old Star visita o clássico som dos anos 80 da NWOBHM (que influenciou o início da cena norueguesa do black metal), e usando elementos de black metal e do doom metal a banda cria alguns dos mais cativantes riffs no catálogo de Darkthrone.
Photo by Ester Segarra

MÚSICAS


1. I Muffle Your Inner Choir (6min25s)
A música “I Muffle Your Inner Choir” é uma ótima maneira de começar o álbum. A composição possui um som formidável da bateria da Fenriz, enquanto os riffs e vocais do Nocturno Culto remetem à época do True Norwegian Black Metal. A faixa mantém um ritmo constante e consistente, com um rápido ritmo de guitarra. Mas aos 3min20s a música tem uma rápida reviravolta e a banda muda a dinâmica da música para um som mais arrastado antes de acelerar de volta para um final glorioso. Um forte começo para o álbum.

2. The Hardship of the Scots (7min35s)
Em seguida temos a 'The Hardship of the Scots', com seus riffs que poderiam ser de um hino do Heavy Metal das grandes bandas da década de 1980. 'The Hardship Of The Scots' é a música mais longa do disco, com 7min35s. Essa é a música que contém o riff mais cativante do disco. Com notável influência da NWOBHM, esse belo riff começa a música antes que o ritmo diminua para depois retornar. Há também um solo de guitarra estendido e variações desse riff original, criando uma trilha memorável. Nos últimos minutos da música os riffs se acumulam para um clímax épico. A faixa tem um grande impacto nos fazendo lembrar de bandas de heavy metal de antigamente como Black Sabbath, Judas Priest e Celtic Frost.  Essa música é um triunfo absoluto! Uma obra cativante e um dos pontos mais altos do álbum.

 The Hardship of the Scots

3. Old Star (4min27s)
Em seguida temos a faixa título, talvez a faixa mais sombria do disco.  Old Star é uma obra de doom metal construída sobre uma estrutura que nos remete ao Black Sabbath. É uma música simples (realmente muito simples), mas dependendo da maneira que abordarmos a música é justamente nessa simplicidade que encontraremos o charme da faixa.

4. Alp Man (5min27s)
‘Alp Man’ segue com uma bela mistura de heavy metal oitentista e doom metal, apresentando grooves intensos e mudanças dinâmicas de ritmo. Para o agrado dos fãs do Doom Metal, aos 2min20s temos uma reviravolta e a música nos leva para uma espécie de “jurisdição musical” do Candlemass. Em lançamentos anteriores seria essa a ocasião onde o Darkthrone aumentaria a velocidade, mas em vez disso eles mantêm o ritmo mais rastejante do que furioso. São momentos como esse que corroboram com a afirmação de que a trajetória do Darkthrone e a música oferecida pela banda é muito mais complicada do que se pode presumir originalmente.

5. Duke of Gloat (6min49s)
Se é velocidade que você deseja, 'Duke of Gloat' nos traz alguns dos riffs mais excitantes e rápidos do álbum. Com um estilo sombrio, cru e agressivo, a faixa é caracterizada por andamentos rápidos. 'Duke of Gloat' retorna a um território mais familiar, já que é a única faixa do ‘Old Star’ que poderia ser rotulada de forma convincente como black metal. Nela somos levados a um território mais negro com a reintrodução das clássicas guitarras de black metal altamente distorcidas tocadas em tremolo picking, uso de blast beats pela bateria, além dos gritos de 'Nocturno Culto' com seu vocal rasgado. Por volta das 3min25s ocorre uma boa transição e, embora o ritmo diminua, a intensidade não. Uma baita música!

 Duke of Gloat 

6. The Key Is Inside The Wall (7min22s)
E para amarrar bem o disco, o Darkthrone termina os trabalhos de ‘Old Star’ justamente da mesma maneira como eles começaram:  com um riff da maior qualidade. Outras músicas foram lançadas no álbum, mas essa música é verdadeiramente esmagadora e se destaca, fechando ‘Old Star’ de maneira arrebatadora. Os riffs oferecidos aqui são abundantes e de altíssimo nível, que nos momentos iniciais da música seguem lentamente para logo em seguida fluir mais rapidamente. Já com o ritmo acelerado da segunda parte da obra o resultado é tão bom que você vai achar irresistível balançar a cabeça. ‘The Key Is Inside The Wall’ encerra o álbum de maneira soberba.



Conclusão

A única crítica a se fazer é que esse álbum maravilhoso é muito pequeno. Com seis músicas em menos de 40 minutos, o Darkthrone criou uma disco muito curto. Simplesmente não há o suficiente disso.  Mas ainda que seja uma obra breve, a meia dúzia de faixas que eles criaram terá poder de permanência. Há qualidade por toda parte

Cheio de referências do passado, porém longe de ser nostálgico, Old Star é um álbum atual que nos brinda com um metal de qualidade. Old Star é uma adição valiosa à longa lista de conquistas da banda, polarizada apenas pela capacidade da banda de mudar o som dentro da escala que preferirem.

Com essa obra o Darkthrone permanece consistente tanto na qualidade de sua produção quanto na dedicação para criar a música que eles mesmos querem ouvir. E justamente por o Darkthrone produzir o material que eles mesmos gostariam de ouvir, e graças à sua dedicação inquebrantável ao seu ofício e graças ao amor da dupla pelo metal que eles mais uma vez conseguiram triunfar em face do avanço do tempo.

O ‘Old Star” não irá (e não deve) receber os mesmos elogios de “A Blaze In A Northern Sky”, “Under a Funeral Moon” e “Transylvanian Hunger”, mas terá mais relevância e provavelmente cairá numa adoração ainda maior que a mostrada para registros como “F.O.A.D”, “The Underground Resistance” e “Arctic Thunder”. 

As 'velhas estrelas' ainda estão brilhando, mantendo aquela luz excepcional que chamou a atenção pela primeira vez há três décadas.

Nota
8/10- Ótimo
Sistema de Classificação
10/10- Perfeito
9/10- Excelente
7/10- Muito Bom
6/10- bom
5/10- Mais ou menos
4/10- Decepcionante
3/10- Ruim
2/10- Muito Ruim
1/10- Embaraçoso
0/10- Patético

Músicas
1. I Muffle Your Inner Choir
2. The Hardship Of The Scots
3. Old Star
4. Alp Man
5. Duke Of Gloat
6. The Key Is Inside The Wall

Gravadora: Peaceville Records
Lançamentos em todo o mundo: 31 de maio de 2019


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